sábado, 29 de dezembro de 2012

HISTÓRIA DO MARTINISMO - 01


 Por Amado Irmão Monte Cristo, S.I.
  



A ORDEM DOS ELUS COHEN DO UNIVERSO
FUNDADA POR MARTINEZ DE PASQUALLY


O nome completo era Jacques de Livron Joachin de la Tour de la Casa Martinez de Pasqually. Nasceu em Grenoble, França, em 1727. Seu pai tinha uma patente maçônica emitida por Charles Stuart, Rei da Escócia, Irlanda e Inglaterra, fechada em 20 de maio de 1738, outorgando-lhe o cargo de Grande Mestre Delegado, com autoridade para levantar templos para a glória do Grande Arquiteto do Universo, e para transmitir a referida Carta Patente a seu filho maior. A patente e os poderes foram transmitidos depois de sua morte a seu filho que tinha 28 anos.

Martinez de Pasqually (1727-1779).



Martinez foi um grande homem que tentou durante toda a sua vida, infundir a espiritualidade à Maçonaria.

A doutrina de Martinez se expõe em um único livro que escreveu: Tratado da Reintegração dos Seres. É um comentário sobre o Pentateuco. Ele fundou uma Ordem não estritamente maçônica, senão composta exclusivamente por maçons: “Ordem dos Cavaleiros Elus Cohen do Universo / Ordem dos Cavaleiros Maçons, Sacerdotes Eleitos do Universo”. Esta Ordem complementava os tradicionais três graus maçônicos, Aprendiz, Companheiro e Mestre, com um sistema de Altos Graus.

Em 1774, Martinez fundou, em Montpellier, França, um Capítulo Maçônico, “Os Juizes Escoceses”. Entre 1755 e 1760, Martinez viajou pela França, recrutando membros para sua organização. Em 1760, fundou em Foix, França, o Capítulo “O Templo Cohen”. Em 1761, fundou em Bordeaux, França, a Loja “A Perfeição Elus Escocesa”. Os membros fundadores foram o Conde D'Alzac, o Marques de Lescourt, os irmãos D'Auberton, de Oasen, de Bobié, Jules Tafar, Morris e Lecembard.

Em 26 de maio de 1763, Martinez enviou sua Patente de Stuart à Grande Loja da França, informando-lhes que havia fundado em Bordeaux, um Templo de cinco graus de perfeição, dos quais Martinez era o fiador, sob os termos da patente do “Rei Stuart da Escócia, Irlanda e Inglaterra, Grande Mestre de todas as Lojas espalhadas sobre a face da Terra”. O nome da Loja foi trocado para “A Francesa Elus Escocesa”. Em 1° de março de 1765 a Grande Loja da França aprovou e registrou esta Loja.

Em 1765, Martinez viajou a Paris, de onde organizou sua futura Loja parisiense. Em 21 de março de 1757, fundou o “Tribunal Soberano dos Elus Cohen”, com Bacon de la Chevaliere como seu Delegado. Desde 1770 o Rito dos Elus Cohen tinha templos em numerosas cidades: Bordeaux, Montpellier, Avignon, Foix, La Rochelle, Verssailles, Paris e Metz. Um templo se abriu em Lyon e graças ao entusiasmo do discípulo Jean Baptiste Willermoz, esta cidade se converteu em um centro espiritual desta Ordem por muitos anos. Em 20 de setembro de 1774, Martinez faleceu em Port aux Prince, Haiti.

A Ordem dos Elus Cohen se dividia em três classes:

Primeira Classe: Continha os três graus da Maçonaria Simbólica, a saber 1) Aprendiz, 2) Companheiro e 3) Mestre e mais um quarto grau de 4) Grande Eleito ou Mestre Particular.

Segunda Classe: compreendia os chamados Graus do Pórtico ou Átrio, de 5) Aprendiz-Elus Cohen, 6) Companheiro-Elus Cohen e 7) Mestre-Elus Cohen.

Terceira Classe: continha os Graus de Templo, de 8) Grande Mestre Elus Cohen, 9) Cavaleiro do Este ou Grande Arquiteto e 10) Comandante do Este ou Grande Eleito de Zorobabel. 

Além deste, existia um grau secreto: o de 11) Reau-Croix, que não se deve confundir com o grau Rosa Cruz, que apareceria mais tarde na Maçonaria. Neste grau, o iniciado se colocava em contato com os planos espirituais além do físico, através de invocações mágicas e práticas teúrgicas. O objetivo da Ordem era alcançar a visão beatífica do Reparador Jesus Cristo, como resposta a suas evocações mágicas.

Martinez conferiu o título de “Juiz Soberano e Superior Incógnito da Ordem” a seus discípulos Bacon de La Chevaliere, Johan Baptiste Willermoz, de Serre, Du Roy, D'Hauterive e de Lusignan.

Jean Baptiste de Willermoz (1730-1824).

Antes de sua morte, ocorrida em 1778, Martinez havia designado como sucessor, seu primo Armand Cagnet de Lestére, que faleceu em 1778, logo após transmitir seus poderes ao “Mui Poderoso Mestre” Sebastian de las Casas. A continuação suscitou numerosas disputas nos templos da Europa e geraram divisões que impediram unificar o Rito. Supõe-se que se transmitiu de pessoa para pessoa, dentro de cenáculos conhecidos como Areópagos Kabalísticos, de nove membros da Ordem. Um dos últimos nomes que se dispõe é o de um tal Destigny, que morreu em 1868.

Ao finalizar a Segunda Guerra Mundial, três iniciados S.I. fundaram uma Ordem Martinista dos Elus Cohen. Um deles foi o Grande Mestre Robert Ambelain (Sar Aurifer), com materiais diversos. Esta Ordem pratica o caminho teúrgico dos Elus Cohen, porem é muito duvidoso que seja a continuação dos mesmos. Em 22 de agosto de 1996, Sar Aurifer vivia em Paris, França.

Nota: Em 1895, Papus admitiu possuir rituais e arquivos originais da Ordem dos Elus-Cohen, que chegaram a suas mãos, seguindo o seguinte trajeto:

1) os arquivos passaram primeiro pelas mãos de Willermoz, aproximadamente em 1782;
2) de Willermoz passaram para as mãos de seu sobrinho;
3) deste sobrinho para a viúva do mesmo;
4) desta viúva para M. Cavernier, um estudante de ocultismo;
5) que por mediação de um vendedor de livros chamado M. Elie Steel, Papus foi posto em contato com Carvenier;
6) que permitiu a Papus copiar os principais documentos.



Os ensinamentos dos Elus Cohen

Brasão da Ordem dos Elus Cohen.

Arthur Edward Waite indica os seguintes estudos dos “Sacerdotes Eleitos” ou “Elus Cohen”. Os três primeiros graus são maçônicos. Os seguintes tratam de:

Quinto Grau Aprendiz Eleito Cohen: a instrução deste grau divide o conhecimento sobre a existência do Grande Arquiteto do Universo e sobre o princípio da emanação espiritual do homem. Mesmo a Ordem é emanada do Criador e tem sido perpetuada até nossos dias por Adão, de Adão para Noé, de Noé para Melquizedeque, portanto a Abraão, Moisés, Salomão, Zorobabel e Cristo. O sentido desta transmissão dogmática é que sempre tem existido uma Tradição Secreta no mundo, e que sucessivas épocas a tem manifestado com sucessivas custódias. È com este sentido que a Ordem diz Ter o propósito de manter o homem e sua virtude primitiva, com seus poderes espirituais e divinos.

Sexto Grau Companheiro Eleito Cohen: o estudante aprende a Caída do Homem. Ele é passado da perpendicular ao triângulo, ou da união do Primeiro Princípio ao da triplicidade das coisas existentes. O grau de Companheiro tipifica essa transição. Ao Candidato desfazer a Queda, na qual seu próprio espírito se acha submerso.

Sétimo Grau Mestre Eleito Cohen: simbolicamente o Candidato passa do triângulo ao círculo. Trabalha nos círculos de expiação que dizem ser seis, em correspondência com as seis concepções utilizadas pelo Grande Arquiteto na construção do Templo Universal. Se explica o simbolismo do Templo de Salomão. Estimula-se os membros deste Grau a caridade, aos bons exemplos e a todos os deveres da Ordem, para a reintegração de seus princípios individuais, simbolizados no Mercúrio, o Enxofre e o Sal.

Oitavo Grau Grande Mestre Eleito Cohen Particular: o candidato entra no círculo da reconciliação. Estimula-o a abraçar a causa da luta contra o mal sobre a terra, que tenta destruir a Lei divina. Devem ser soldados do Reconciliador, o Cristo. Se adverte o candidato a não ingressar em ordens secretas que pervertem os ensinamentos recebidos. Simbolicamente o candidato tem 33 anos.

Nono Grau Grande Arquiteto ou Cavaleiro do Este: simbolicamente o candidato tem 80 anos. É um Grau de Luz e o Templo se abre com todas as luzes acesas. Existem quatro Guardiões, que representam aos quatro ângulos dos quatro pontos cardeais do céu. Se estudam os mistérios das Tábuas Enoquianas de John Dee.

Os membros deste grau se ocupam da purificação de seus sentidos físicos, de modo a poder participar na obra do Espírito Santo. Se lhes instrui a construir novos Tabernáculos e a destruir os antigos. Estes quatro tabernáculos são: 1) O corpo do homem; 2) O corpo da mulher; 3) O Tabernáculo de Moisés; 4) O Tabernáculo do Sol, ou Tabernáculo temporal espiritual no qual o Grande Arquiteto do Universo destinou conter os nomes sagrados e palavras sagradas de reação espiritual e material. Se pronuncia o nome de Cristo pela primeira vez no Rito.

Décimo Grau Grande Eleito de Zorobabel ou Comandante do Este: o Candidato trabalha sobre a Redenção. É muito pouco do que se pode dizer desse Grau.

Décimo Primeiro Grau Cavaleiro Reaux Croix: sem dados. Supõe-se que simboliza a realização de Cristo.

ORIGEM DA MAÇONARIA - PARTE 01


Por SGCMRAB





Para entender a grande divisão da Maçonaria em Graus Simbólicos e Altos Graus, é preciso compreender o que ocorria nas Ilhas Britânicas e na França, nos séculos XVII e XVIII. A Inglaterra e seu vizinho do Norte, a Escócia, tinham uma convivência turbulenta para dizer o mínimo. A Escócia, desde há muito, era aliada tradicional da França, por sua vez inimiga tradicional da Inglaterra.

TUDOR - Elizabeth I (1533-1603), morre sem deixar herdeiros



O cenário político Em 1603, Elizabeth I, Rainha da Inglaterra, indicou o filho de sua grande rival, Mary Stuart, rainha da Escócia, como seu sucessor. James I, que era Rei da Escócia como James VI, passa a governar também a Inglaterra e a Irlanda, dando início à dinastia dos Stuarts. Foi sucedido por seu filho, Charles I.

STUART - James I (1566-1625), união das Coroas da Inglaterra e Escócia



Embora Inglaterra e Escócia fossem protestantes. Charles casou-se com uma princesa francesa e católica, Henrietta Maria. Influenciado pelo poder real absoluto na França, tentou impor um governo sem Parlamento. Acabou por levar seus súditos a uma série de conflitos fratricidas (1639-1660).

STUART - Charles I (1600-1649), tenta impor o “direito divino” dos reis; a rainha e os príncipes Stuart seguem para o exílio


Perdeu a luta e foi executado em 1649. Sua Rainha e seu filho, o Príncipe Charles, exilaram-se na França, en- quanto a Inglaterra tornava-se uma república, dirigida com mão de ferro por Oliver Cromwell. Muitas foram as tentativas de reconduzir os Stuarts ao trono britânico no período de Cromwell, mas todas fracassaram.

STUART - Charles II (1630-1685), morre sem deixar herdeiros legítimos


Em 1660, cansado da intolerância religiosa e da ditadura republicana puritana, o povo traz a monarquia de volta à Inglaterra. O Príncipe exilado assume o trono como Charles II e tenta reconciliar diferenças políticas e religiosas. Esse é justamente o período em que emerge das sombras a Franco-Maçonaria.



STUART - James II (1633-1701), irmão de Charles; tenta impor o catolicismo na Grã-Bretanha; segue para o exílio na França.

Entretanto, Charles, apesar dos muitos filhos naturais, morre sem deixar um herdeiro ao trono. Foi sucedido por seu irmão, James II, que não tinha o seu tato. James convertera-se ao catolicismo. Embora desagradando ingleses e escoceses, essa conversão não teria maiores consequências se, em 1688, não tivesse nascido um filho homem, James Edward Stewart.


STUART - Mary (1662-1694) e William (1650-1702), morrem sem deixar herdeiros


Um acontecimento na França veio reacender entre os ingleses a antipatia pelo catolicismo. Quase cem anos antes, em 1598, o Rei Henri IV havia posto fim às terríveis lutas político-religiosas entre católicos e protestantes, que enlutaram a França do século XVI. ao promulgar o Edito de Nantes, Henri garantia liberdades civis e de culto aos protestantes. Mas, em 1685, Louis XIV, o Rei Sol, figura máxima do absolutismo, revogou o Edito de Nantes.

STUART - Anne (1665-1714), morre sem deixar herdeiros


A liberdade religiosa chegava ao fim na França católica, onde também já não mais existia liberdade política.

James Edward (1688-1766), Velho Pretendente


Charles Edward (1720-1788), Jovem Pretendente

Ingleses e escoceses, fartos de lutas religiosas, passaram a considerar inaceitável uma sucessão católica ao trono britânico, uma ameaça real às suas próprias liberdades. O trono foi então oferecido à filha de James II, Mary, casada com William, chefe de estado da Holanda. James foi praticamente deposto e exilou-se na França. Infelizmente, William e Mary faleceram sem deixar herdeiros. A irmã de Mary, a Rainha Anne, que a sucedeu, também não deixou herdeiros.

HANOVER - George I (1660-1727)

O trono foi então oferecido a um Príncipe alemão, bisneto de James I, que iniciou a dinastia de Hanover no trono britânico, sob o nome de George I. Mas os Stuarts tinham muitos partidários dos dois lados do canal. Até a derrota final dos stuartistas ou jacobitas (de Jacobus, forma latina de James), na batalha de Culloden, em 1745, o movimento de restauração da dinastia Stuart ameaçou seriamente a estabilidade da dinastia Hanover.

HANOVER - George II (1683-1760)

A Maioria dos Maçons ignora, mas é nessa rivalidade entre as duas dinastias rivais, Hanover e Stuart, que serão desenhados os Graus Simbólicos e os Altos Graus Maçônicos.


HANOVER - George III (1738-1820)

HANOVER - George IV (1762-1830)


O Cenário Maçônico

Londres, após o grande incêndio de 1666, teve que ser reconstruída. Mas de alvenaria, não mais de madeira e estuque. A grande demanda de pedreiros fez crescer o status e despertou o interesse do público em geral pelo ofício.

“O Grande Incêndio de Londres”, de Lieve Verschuier

Ao mesmo tempo, o clima de distensão, abertura e tolerância atraiu imigração seleta, grandes inteligências, incapazes de aceitar a opressão, como os huguenotes franceses. E permitiu que fossem criadas agremiações onde podiam reunir-se as cabeças pensantes, muitas delas envolvidas no processo londrino de reconstrução geral. Talvez somente na Inglaterra daquela época seria tolerado que um grupo se reunisse a portas fechadas. Em qualquer outro lugar, isso despertaria suspeitas das autoridades. A Royal Society, os clubes, as sociedades e a Franco-Maçonaria afloraram justamente nessa época.

Brasão de armas da Royal Society

Nada mais natural que os Maçons de então fossem dedicados à dinastia Stuart.
Brasão de armas da Grande Loja Unida da Inglaterra

Como vimos, os Stuarts foram afastados do trono em 1688. Bons monarcas ou não, o fato é que eles ganharam uma aura romântica no exílio.

Em contrapartida, o novo Rei britânico, George I, era insípido, grosseiro e impopular. Jamais falou inglês. Seus descendentes foram insípidos e impopulares, quando não escandalosos.

Bem, dirá você, mas o que tem isso tudo a ver com a Maçonaria? Aqui é preciso levar um fator muito importante em consideração.

Nestes tempos de comunicação fácil, não avaliamos o papel das Lojas como centros de irradiação de ideias. Mas as autoridades da época sabiam muito bem. As Lojas e os Maçons, com seus juramentos e segredos, pareciam uma ameaça potencial intolerável. Como aceitar uma sociedade secreta, sabidamente composta por partidários do ancien regime e dispostos a reconduzir ao trono a dinastia Stuart?